sábado, 25 de março de 2017

Notas sobre ela


5:40. Todos os dias. Ela levanta. Esse já é seu quinto ano de rotina exaustiva. Levanta, se arruma e chega no trabalho antes das sete.
É assim seis vezes na semana. O normal é ficar até 12:00 no trabalho. Mas não é sempre assim. Às vezes fica à tarde, e se fica, nesse dia não tem almoço. No quinto ano assim. Talvez tenha jantar. Talvez tenha o pão que a empresa oferece de lanche. Talvez nem isso. Ela não tem tempo. Nem pra comer. Nem pra dormir. Ela não pode adoecer. Tem que ser forte. Segurar a barra. É coluna. Não pode cair. É o quinto ano assim.
Tem dias que ela desaba. Não dá pra ser forte o tempo todo. Ela quis um colo. Um abraço. Recebeu porque pediu. E só. Não foi vista. Ninguém notou seu esgotamento. Seu cansaço. Julgaram-na. Chamaram-na de fraca. Logo ela que trabalha cerca de 12 horas por dia. Todos os dias. Inclusive nos domingos. E ainda tem tempo para o filho. Senta no chão com a criança. Brinca de montar brinquedos. Brinca de bola. Conta história. Faz jantar. Dá banho. Faz dormir. Está do lado quando adoece. Leva ao hospital. À consulta. Acompanha. Logo ela que não sabe o que é dormir oito horas seguidas há cinco anos. Ou mais.
Mas sabe?! Isso não faz dela boa o suficiente. Ela briga. Fala alto. Quer verdades. Quer presença. Pede abraço. Quer do lado. Quer ser notada. Quer colo. Apoio. Ajuda. Companheirismo. Ela não sabe que não tem esse direito. Ela exige muito. Tinha que se contentar com o que tem. Tinha que agradecer porque não passa o que muitos passam. Tinha que fazer mais ainda porque faz pouco. 
Ela não sabe que é assim mesmo?! Pois devia saber! Ela que quis. Agora reclama. Diz que não aguenta. Que vai embora. Que desiste. Fraca. Frouxa. Trouxa. Ela que vá! Vai ficar sabendo o que perdeu. Vai ficar sabendo que estava no céu. Vai ficar sabendo que tinha o de melhor da vida. Vai lembrar que tudo isso é culpa dela. Ora! Como pode isso: ir embora?! Ela que decidiu pôr fim a tudo, não foi? Agora aguenta. Cuida do filho porque não tem essa de fim de semana não. Nem de noite. Nem de dia. Quando der alguém aparece. Quando der. E não adianta chorar. Ela que quis. Ela que decidiu. Fraca. Frouxa. Trouxa. Agora aguenta.
5:40. Ela levanta. Se arruma. Chega no trabalho antes das sete. Tem que trabalhar mesmo. Agora mais ainda. Agora como nunca. E tem que ser forte. Tem que ser coluna. Não pode chorar. Não pode sofrer. Tem um filho. Tem que cuidar porque o filho é dela. Segue o caminho. Agora é tudo responsabilidade dela. E só para constar, foi ela quem saiu perdendo, porque o certo era ficar. Mas ela quis ir... agora aguenta. Fraca. Frouxa. Trouxa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário