terça-feira, 28 de março de 2017
NOTAS SOBRE ELA II
Ela chorou. Gritou. Pediu. Implorou.
Por fim fizeram-na acreditar que ela é quem tinha errado. Que ela é quem tinha perdido. Ela acreditou que todos os problemas aconteceram por culpa dela. Porque ela amava demais. Queria demais. Pedia abraço. Queria presença.
Mas aí ela se lembrou. Não era bem assim. Não mesmo. De jeito nenhum.
Ela trabalhava feito louca. Cuidava do filho. Estudava aos fins de semana. Trabalhava quando os outros dormiam. Mantinha-se digna diante de todos os problemas. Ainda que gritasse, tentava conversar.Tirava seus próprios sonhos da lista de prioridades para bancar o dos outros. Daí, quando as coisas foram se equilibrando pro outro lado, ela ficou como culpada? Não mesmo! Não era. Agora ela entendeu. Decidiu sorrir. Ser feliz. As pessoas falam de qualquer jeito.
Em um dia ela descobriu o quanto ela era ingênua. E se sentiu mal. Sentiu-se pequena porque se culpou pelo erro do outro. Ora! Não era assim! Ela era fiel. Ela sempre foi fiel. Ela se manteve digna. Percebeu que poderia fazer coisas que haviam tirado dela. Ela poderia andar de cabeça erguida. Ah! Isso era para poucos! Cabeça erguida e consciência tranquila é o néctar de quem é honesto e digno. E ela era. Não tinha o que temer.
Durante o luto do amor que morreu, ela ficou cabisbaixa. Só porque acreditava que fora ela quem matou o amor. Mas não foi. Que amor frágil é esse que não suporta os problemas? O dela suportou. E como. Suportou abandono. Suportou mentiras. Suportou machismo. Suportou desleixo. Suportou ser trocada por amigos, hobbies e mulheres. O dela foi além do limite. Suportou até que transbordou de excesso. Vários excessos. Excesso de amor. Excesso de paixão. Excesso de vontade. Excesso de desejo de conversar. De consertar. Transbordou apenas. Mas então ela percebeu algo. Não importa o que disseram para diminuí-la. Ela era mais. Muito mais.
Enquanto diziam que ela era lixo, outros diziam que ela era o melhor. Enquanto diziam que ela não era suficiente, outros diziam que ela fazia falta. Enquanto uns não se importavam com nada do que ela sentia, outros a viram triste e ofereceram o ombro. Nesse momento ela descobriu. Ela entendeu. Ela era forte. Muito forte. E era amada. Ainda que ela amasse quem dissera a ela que o amor acabou, que ela matou o amor que um dia existiu entre eles, ela percebeu que algo devia mudar. Ainda que aquele amor não acabasse, ela sabia que o amor próprio deveria brotar. E brotou. E cresceu. Agora ela era flor. Flor que desabrochara. Flor que encantava. Flor que sabia se adubar sozinha. Flor que nasceu entre as pedras, e que, por isso mesmo, sabe agora lidar com as durezas da vida.
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