domingo, 6 de agosto de 2017

PATERNIDADE DO ABORTO

Dia dos pais chegando.
Mídia apresentando possibilidades de presentes para pais presentes. Mas hoje quero falar de um assunto que comumente não tem atenção na mídia, porque, como é tido como "natural", não merece destaque. 
Quero falar sobre pais que abortam. Sim, pais.
Segundo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tinha, em 2011, cerca de 5,5 milhões de crianças que não tinham o nome do pai na certidão de nascimento. Ou seja, eram 5,5 milhões de pais que abortaram; 5,5 milhões de crianças que não teriam a imagem paterna/biológica para se espelharem.
O aborto paterno vai além do registro, bem sei.
É indizível o número de pais que mantêm o nome na certidão de nascimento dos filhos, mas que não fazem nada além disso.
Há ainda aqueles que, ainda que estejam dentro de casa, nada mais fazem a não ser estarem dentro de casa, e, quando muito, suprem a necessidade básica de alimentos e vestimentas.
É importante falar das inúmeras possibilidades de aborto paterno.
Há os pais que, dentro de casa, não auxiliam em nada sua esposa. Não trocam fraldas. Não dão banho. Não dão comida. Não sabem o remédio que o bebê deve tomar, caso haja febre. Não sabem que o bebê deve começar a estudar na próxima semana. Não sabem o nome da professora. Não sabem a série da criança. Não sabem se precisa de materiais ou uniforme. Aliás, nem sabem o número do uniforme que o filho veste.
Há aqueles que, quando se separam das mulheres, se separam também dos filhos. Não interessa a situação da separação: se foi amena, se foi conturbada. Os pais simplesmente ignoram que têm filhos. Alguns somem completamente. Outros passam a ser pais de finais de semana. Aqueles, quando muito, enviam uma pensão de duzentos reais para suprirem a necessidade de leite (uns 90,00 por mês)*, de fraldas (uns 120,00 por mês)*, de material escolar (uns 300,00 por ano)*, de roupas e calçados (uns 500.00 por ano)*, de remédios (sem cálculo possível)*, da escola (uns 400.00 por mês)*, de plano de saúde (uns 150,00 por mês)*... sem falar em outras despesas, tais como recreação e alimentação.
Os de finais de semana, como o nome diz, aparecem no final de semana, mas não durante ele todo. E não durante todos. Não conseguem conciliar festas, mulheres, sexo casual, trabalho (quando há) com a presença dos filhos. No final de semana que vão namorar, não há como ser pai. No final de semana que vão ser pai, só pode ser por um tempo... algo em torno de 20 minutos a uma hora e meia. Esses ainda têm um ônus maior: quase nunca participam financeiramente, Ora, e por que deveriam? Eles não são presentes?
Em todos os casos, os pais perdem muito.
Perdem as primeiras palavras, os primeiros escritos, as primeiras brincadeiras. Não veem a criança aprender a comer sozinha, não sabem como foi no primeiro dia de aula, não vão ter as histórias dos erros fonéticos pra contar.
Esses pais não sabem nada de seus filhos.
Ainda que se coloquem como pais presentes, nunca saberão o que é acordar e ouvir a voz de um pequeno ser dizendo bom dia. Nunca saberão como é estar ao lado de um bebê que vai desenvolvendo gosto por música, por dança, por artes.
Acreditam que são insubstituíveis. Até que chegue alguém que supra todas essas ausências.
Alguém que pegue no colo, que brinque de pegar, que ensine a escrever, que conte histórias, que ouça histórias, que solte pipa, que ensine a amarrar o cadarço, que esteja do lado, que seja herói. Alguém que, um dia, passe a receber o título de pai. Ou não. Não precisa, necessariamente, ser outro homem.
Pode ser a própria mãe. Aquela que sempre esteve do lado. Que escolheu um ambiente de paz para criar o filho. Que preferiu estar ao lado do ser que mais ama. Que lutou para que o filho estivesse bem. Que acorda cedo para levar o bebê à creche e depois vai trabalhar. Que trabalha muito porque é preciso suprir todas as necessidades do filho. Que sempre trabalhou muito porque, muitas vezes, o pai, que por algum tempo esteve por perto, não se preocupava com as questões financeiras e sobrecarregava a mulher, ainda que o trabalho excessivo da esposa tenha sido uma de suas desculpas para fazer do relacionamento um caos: traindo, indo a festas, se envolvendo com pessoas que desrespeitavam o casamento, vivendo bebedices (mas isso é assunto pra outra crônica).
Muitas vezes, o herói de que a criança precisa não é aquele que tem força física, mas o que tem força de caráter: é honesto, presente, cuidador e amigo, E, nesse caso, não precisa ser o pai biológico. Pode ser outro. Ou pode ser a mãe mesmo, porque, como nos contam as estatísticas, pais que abortam são cada vez mais presentes em nossa sociedade. E olha só que ironia, eles conseguiram ser presentes, ainda que da pior maneira.


* Valores aproximados
P.S. Não me ative à figura da mãe que também pode abandonar o filho porque a mídia já faz isso. a mídia sempre relata acerca de mães que abortam quando escolhem que o bebê não nasça, ou quando abandonam seus filhos. Essas não precisam de mais destaque. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O COMUM DA UNIÃO

Ela era militante.
Ele era se partido.

Ela pregava empatia.
Ele isso não conhecia.

Ela queria estar junto.
Ele se via em prisão.

Ela doou-se com tudo.
Ele nem o coração.

Ela cansou-se da espera.
Ele nem mesmo notou.

Ela bateu forte a porta.
Ele não acreditou.

Ela trocou de endereço.
Ele atrás dela foi.

Ela perdeu o sentimento.
Ele o reencontrou.

Ela pôs fim à história.
Ele deu início à dor.  

28/02/2017

domingo, 23 de abril de 2017

ELA NÃO MUDA, ORA.

- Porque ela não muda nunca.
Essa foi a resposta dele quando perguntado sobre por que se separara.
Esqueceu-se de dizer, porém, que foi ela quem foi embora. Não que isso faça tanta diferença, mas certamente deve contar quando perguntarem sobre quem cansou primeiro.
Enquanto ele respondia a essa pergunta, bebia mais um copo de cerveja. Bebida que sempre menosprezara durante o casamento. Após dar mais um gole, enlaçava a mulher que o acompanhava naquele salão e trazia-a mais para perto de si, a fim de beijar-lhe a boca.
Enquanto isso, ela, a mulher que ele afirmou incisivamente que não mudava nunca, estava em casa cuidando do filho.
Pela manhã, a mulher e o filho acordaram cedo. Ela arrumou as coisas da criança, porque o pai dissera na noite anterior que viria buscar a cria a fim de irem à avó. Isso se daria entre as 8 e 9 da manhã. Não chegou no horário. Como poderia tendo ido se deitar mais de 4:30 da manhã? Como poderia manter sua fala? Como poderia afirmar que sua prioridade continuava sendo o filho? Ora, como continuar uma atitude que não existia antes?
Durante o tempo em que estavam juntos, nem sempre cuidava do básico da criança. Não era um mau pai, mas não conseguia deixar o celular de lado e dar atenção à criança. Tanto o é que, hoje, o pequeno não pode ver um celular que dá birra.  
Não contou tudo. Não disse que a mulher possuía muitos defeitos, mas que tentara corrigir-se. Não disse que, no último mês, era ela quem cuidava das necessidades da criança sozinha. Coisa que fazia também quando estavam juntos. Não disse que ele se negara a mudar ainda quando estavam juntos. Não se lembrou que dissera a quem era próximo dele que não pretendia abandonar as práticas que prejudicavam o casamento. Não dissera que saía sozinho sem a então esposa. Não. Não dissera nada disso.
Lembrara-se apenas de dizer que a ex não mudava nunca. 
Que ela brigava, que ela falava alto, que ela era uma mulher arredia. Que ela queria atenção e não admitia a ideia de privacidade no casamento. Também dissera que ela era controladora e que seu casamento era uma prisão.
Tudo isso foi dito enquanto tomava bebidas alcoólicas e abraçava outra mulher. Na sequência convidou-a para dançar. Terminaram a noite juntos. 
Mas, no fim, era ela quem não prestava. 
Chegou às 10 para buscar o filho. Esse é o horário quando a criança dorme. Mas ele não sabe. Ele não conhece a rotina do pequeno. 
Riu sarcasticamente quando perguntado sobre onde passara a noite e se sua abstinência de sono não perturbaria a direção do carro onde estava o bebê. Fez o que sabia fazer bem. Riu dela. Cruelmente. Ignorou-a. Fê-la saber que, para ele, ela de nada servia. Não a surpreendeu. Ela já estava acostumada.
Levou a criança acompanhado de pessoas que, durante o casamento, afirmavam que ele era melhor antes: solteiro, frequentador de festas, típico bebedor. Ele não deve se lembrar disso. Mas ela, a mulher que não muda, ela se lembra. 
A questão é que ela decidiu que isso não a vai ferir mais. Não mais. Cada dia que se passa, ele tem atitudes que comprovam que é melhor assim. Ele não se preocupa com ela. Nem com o filho. Mas faz questão de parecer bom pai. Ele não é presente. Não está presente. Não quer saber. Não liga, não pergunta, não se interessa. 
Mas a culpa de não estarem juntos é dela.  Só dela. Porque, afinal, ela não muda nunca.

domingo, 9 de abril de 2017

Liberdade? Talvez não.

Liberdade não é isso que se vê por aí. Não mesmo. 
Liberdade é poder escolher. 
Escolher ficar mesmo podendo ir.
Escolher ser fiel, mesmo tendo dezenas de pessoas querendo te ter por perto.
Escolher permanecer amando, mesmo quando as lutas vêm.
Escolher seguir suas crenças, mesmo quando o mundo te dita outras regras.
Liberdade é poder escolher. 
Escolher o amor em lugar de amigos que depreciam quem está do seu lado.
Escolher cuidar quando o outro está doente mesmo tendo mil festas a que ir.
Liberdade não é, nem de longe, ficar bebendo toda noite (ou quase todas). 
Não é sair com amigos e deixar sua parceira (ou parceiro) em casa sozinho.
Não é deixar de dizer que ama porque o outro já sabe disso.
Liberdade é saber que, há algum tempo, você fez uma escolha para a vida.
É saber que você tem responsabilidades, compromissos, promessas.
Liberdade não é beijar várias bocas em poucos dias.
Não. 
Liberdade é outra coisa.
Quando você se deita na cama e sabe que tem do seu lado alguém que te ama e que seria capaz de dar o mundo a você se fosse preciso, isso é liberdade.
Quando você acorda e sabe que aquela pessoa esteve pensando em você por um bom tempo, isso é liberdade.
Saber que o fruto do amor de vocês é uma vida linda e pequena e que depende totalmente dos exemplos de amor que tem, isso é liberdade.
Liberdade não é colocar senha no celular e proibir que vejam suas conversas.
Não é conversar com pessoas que fizeram parte do seu passado e achar que tudo bem.
Não é diminuir quem está do seu lado fazendo-o acreditar que ele nunca te fez feliz, que nunca foi suficiente.
Não. 
Liberdade é escolha. 
Liberdade é poder estar sozinho, mas escolher estar com quem jamais te deixaria só.
É escolher estar com quem te consola na dor.
É escolher ficar com quem sonha seus sonhos.
É notar que o outro tem falhas, mas perceber também quando ele tenta melhorar com diálogos, promessas, renúncias.
Sabe, liberdade não é isso aí que tem sido disseminado na cabeça de quem já amou.
Liberdade é outra coisa.
Liberdade é escolher "pousar ao teu lado, podendo voar. Podendo encontrar até outros ninhos, outros caminhos, escolher ficar."

terça-feira, 28 de março de 2017

NOTAS SOBRE ELA II


Ela chorou. Gritou. Pediu. Implorou. 
Por fim fizeram-na acreditar que ela é quem tinha errado. Que ela é quem tinha perdido. Ela acreditou que todos os problemas aconteceram por culpa dela. Porque ela amava demais. Queria demais. Pedia abraço. Queria presença. 
Mas aí ela se lembrou. Não era bem assim. Não mesmo. De jeito nenhum.
Ela trabalhava feito louca. Cuidava do filho. Estudava aos fins de semana. Trabalhava quando os outros dormiam. Mantinha-se digna diante de todos os problemas. Ainda que gritasse, tentava conversar.Tirava seus próprios sonhos da lista de prioridades para bancar o dos outros. Daí, quando as coisas foram se equilibrando pro outro lado, ela ficou como culpada? Não mesmo! Não era. Agora ela entendeu. Decidiu sorrir. Ser feliz. As pessoas falam de qualquer jeito.
Em um dia ela descobriu o quanto ela era ingênua. E se sentiu mal. Sentiu-se pequena porque se culpou pelo erro do outro. Ora! Não era assim! Ela era fiel. Ela sempre foi fiel. Ela se manteve digna. Percebeu que poderia fazer coisas que haviam tirado dela. Ela poderia andar de cabeça erguida. Ah! Isso era para poucos! Cabeça erguida e consciência tranquila é o néctar de quem é honesto e digno. E ela era. Não tinha o que temer.
Durante o luto do amor que morreu, ela ficou cabisbaixa. Só porque acreditava que fora ela quem matou o amor. Mas não foi. Que amor frágil é esse que não suporta os problemas? O dela suportou. E como. Suportou abandono. Suportou mentiras. Suportou machismo. Suportou desleixo. Suportou ser trocada por amigos, hobbies e mulheres. O dela foi além do limite. Suportou até que transbordou de excesso. Vários excessos. Excesso de amor. Excesso de paixão. Excesso de vontade. Excesso de desejo de conversar. De consertar. Transbordou apenas. Mas então ela percebeu algo. Não importa o que disseram para diminuí-la. Ela era mais. Muito mais.
Enquanto diziam que ela era lixo, outros diziam que ela era o melhor. Enquanto diziam que ela não era suficiente, outros diziam que ela fazia falta. Enquanto uns não se importavam com nada do que ela sentia, outros a viram triste e ofereceram o ombro. Nesse momento ela descobriu. Ela entendeu. Ela era forte. Muito forte. E era amada. Ainda que ela amasse quem dissera a ela que o amor acabou, que ela matou o amor que um dia existiu entre eles, ela percebeu que algo devia mudar. Ainda que aquele amor não acabasse, ela sabia que o amor próprio deveria brotar. E brotou. E cresceu. Agora ela era flor. Flor que desabrochara. Flor que encantava. Flor que sabia se adubar sozinha. Flor que nasceu entre as pedras, e que, por isso mesmo, sabe agora lidar com as durezas da vida. 

sábado, 25 de março de 2017

Notas sobre ela


5:40. Todos os dias. Ela levanta. Esse já é seu quinto ano de rotina exaustiva. Levanta, se arruma e chega no trabalho antes das sete.
É assim seis vezes na semana. O normal é ficar até 12:00 no trabalho. Mas não é sempre assim. Às vezes fica à tarde, e se fica, nesse dia não tem almoço. No quinto ano assim. Talvez tenha jantar. Talvez tenha o pão que a empresa oferece de lanche. Talvez nem isso. Ela não tem tempo. Nem pra comer. Nem pra dormir. Ela não pode adoecer. Tem que ser forte. Segurar a barra. É coluna. Não pode cair. É o quinto ano assim.
Tem dias que ela desaba. Não dá pra ser forte o tempo todo. Ela quis um colo. Um abraço. Recebeu porque pediu. E só. Não foi vista. Ninguém notou seu esgotamento. Seu cansaço. Julgaram-na. Chamaram-na de fraca. Logo ela que trabalha cerca de 12 horas por dia. Todos os dias. Inclusive nos domingos. E ainda tem tempo para o filho. Senta no chão com a criança. Brinca de montar brinquedos. Brinca de bola. Conta história. Faz jantar. Dá banho. Faz dormir. Está do lado quando adoece. Leva ao hospital. À consulta. Acompanha. Logo ela que não sabe o que é dormir oito horas seguidas há cinco anos. Ou mais.
Mas sabe?! Isso não faz dela boa o suficiente. Ela briga. Fala alto. Quer verdades. Quer presença. Pede abraço. Quer do lado. Quer ser notada. Quer colo. Apoio. Ajuda. Companheirismo. Ela não sabe que não tem esse direito. Ela exige muito. Tinha que se contentar com o que tem. Tinha que agradecer porque não passa o que muitos passam. Tinha que fazer mais ainda porque faz pouco. 
Ela não sabe que é assim mesmo?! Pois devia saber! Ela que quis. Agora reclama. Diz que não aguenta. Que vai embora. Que desiste. Fraca. Frouxa. Trouxa. Ela que vá! Vai ficar sabendo o que perdeu. Vai ficar sabendo que estava no céu. Vai ficar sabendo que tinha o de melhor da vida. Vai lembrar que tudo isso é culpa dela. Ora! Como pode isso: ir embora?! Ela que decidiu pôr fim a tudo, não foi? Agora aguenta. Cuida do filho porque não tem essa de fim de semana não. Nem de noite. Nem de dia. Quando der alguém aparece. Quando der. E não adianta chorar. Ela que quis. Ela que decidiu. Fraca. Frouxa. Trouxa. Agora aguenta.
5:40. Ela levanta. Se arruma. Chega no trabalho antes das sete. Tem que trabalhar mesmo. Agora mais ainda. Agora como nunca. E tem que ser forte. Tem que ser coluna. Não pode chorar. Não pode sofrer. Tem um filho. Tem que cuidar porque o filho é dela. Segue o caminho. Agora é tudo responsabilidade dela. E só para constar, foi ela quem saiu perdendo, porque o certo era ficar. Mas ela quis ir... agora aguenta. Fraca. Frouxa. Trouxa.