Dia dos pais chegando.
Mídia apresentando possibilidades de presentes para pais presentes. Mas hoje quero falar de um assunto que comumente não tem atenção na mídia, porque, como é tido como "natural", não merece destaque.
Quero falar sobre pais que abortam. Sim, pais.
Segundo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tinha, em 2011, cerca de 5,5 milhões de crianças que não tinham o nome do pai na certidão de nascimento. Ou seja, eram 5,5 milhões de pais que abortaram; 5,5 milhões de crianças que não teriam a imagem paterna/biológica para se espelharem.
O aborto paterno vai além do registro, bem sei.
É indizível o número de pais que mantêm o nome na certidão de nascimento dos filhos, mas que não fazem nada além disso.
Há ainda aqueles que, ainda que estejam dentro de casa, nada mais fazem a não ser estarem dentro de casa, e, quando muito, suprem a necessidade básica de alimentos e vestimentas.
É importante falar das inúmeras possibilidades de aborto paterno.
Há os pais que, dentro de casa, não auxiliam em nada sua esposa. Não trocam fraldas. Não dão banho. Não dão comida. Não sabem o remédio que o bebê deve tomar, caso haja febre. Não sabem que o bebê deve começar a estudar na próxima semana. Não sabem o nome da professora. Não sabem a série da criança. Não sabem se precisa de materiais ou uniforme. Aliás, nem sabem o número do uniforme que o filho veste.
Há aqueles que, quando se separam das mulheres, se separam também dos filhos. Não interessa a situação da separação: se foi amena, se foi conturbada. Os pais simplesmente ignoram que têm filhos. Alguns somem completamente. Outros passam a ser pais de finais de semana. Aqueles, quando muito, enviam uma pensão de duzentos reais para suprirem a necessidade de leite (uns 90,00 por mês)*, de fraldas (uns 120,00 por mês)*, de material escolar (uns 300,00 por ano)*, de roupas e calçados (uns 500.00 por ano)*, de remédios (sem cálculo possível)*, da escola (uns 400.00 por mês)*, de plano de saúde (uns 150,00 por mês)*... sem falar em outras despesas, tais como recreação e alimentação.
Os de finais de semana, como o nome diz, aparecem no final de semana, mas não durante ele todo. E não durante todos. Não conseguem conciliar festas, mulheres, sexo casual, trabalho (quando há) com a presença dos filhos. No final de semana que vão namorar, não há como ser pai. No final de semana que vão ser pai, só pode ser por um tempo... algo em torno de 20 minutos a uma hora e meia. Esses ainda têm um ônus maior: quase nunca participam financeiramente, Ora, e por que deveriam? Eles não são presentes?
Em todos os casos, os pais perdem muito.
Perdem as primeiras palavras, os primeiros escritos, as primeiras brincadeiras. Não veem a criança aprender a comer sozinha, não sabem como foi no primeiro dia de aula, não vão ter as histórias dos erros fonéticos pra contar.
Esses pais não sabem nada de seus filhos.
Ainda que se coloquem como pais presentes, nunca saberão o que é acordar e ouvir a voz de um pequeno ser dizendo bom dia. Nunca saberão como é estar ao lado de um bebê que vai desenvolvendo gosto por música, por dança, por artes.
Acreditam que são insubstituíveis. Até que chegue alguém que supra todas essas ausências.
Alguém que pegue no colo, que brinque de pegar, que ensine a escrever, que conte histórias, que ouça histórias, que solte pipa, que ensine a amarrar o cadarço, que esteja do lado, que seja herói. Alguém que, um dia, passe a receber o título de pai. Ou não. Não precisa, necessariamente, ser outro homem.
Pode ser a própria mãe. Aquela que sempre esteve do lado. Que escolheu um ambiente de paz para criar o filho. Que preferiu estar ao lado do ser que mais ama. Que lutou para que o filho estivesse bem. Que acorda cedo para levar o bebê à creche e depois vai trabalhar. Que trabalha muito porque é preciso suprir todas as necessidades do filho. Que sempre trabalhou muito porque, muitas vezes, o pai, que por algum tempo esteve por perto, não se preocupava com as questões financeiras e sobrecarregava a mulher, ainda que o trabalho excessivo da esposa tenha sido uma de suas desculpas para fazer do relacionamento um caos: traindo, indo a festas, se envolvendo com pessoas que desrespeitavam o casamento, vivendo bebedices (mas isso é assunto pra outra crônica).
Muitas vezes, o herói de que a criança precisa não é aquele que tem força física, mas o que tem força de caráter: é honesto, presente, cuidador e amigo, E, nesse caso, não precisa ser o pai biológico. Pode ser outro. Ou pode ser a mãe mesmo, porque, como nos contam as estatísticas, pais que abortam são cada vez mais presentes em nossa sociedade. E olha só que ironia, eles conseguiram ser presentes, ainda que da pior maneira.
* Valores aproximados
P.S. Não me ative à figura da mãe que também pode abandonar o filho porque a mídia já faz isso. a mídia sempre relata acerca de mães que abortam quando escolhem que o bebê não nasça, ou quando abandonam seus filhos. Essas não precisam de mais destaque.