domingo, 6 de agosto de 2017

PATERNIDADE DO ABORTO

Dia dos pais chegando.
Mídia apresentando possibilidades de presentes para pais presentes. Mas hoje quero falar de um assunto que comumente não tem atenção na mídia, porque, como é tido como "natural", não merece destaque. 
Quero falar sobre pais que abortam. Sim, pais.
Segundo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tinha, em 2011, cerca de 5,5 milhões de crianças que não tinham o nome do pai na certidão de nascimento. Ou seja, eram 5,5 milhões de pais que abortaram; 5,5 milhões de crianças que não teriam a imagem paterna/biológica para se espelharem.
O aborto paterno vai além do registro, bem sei.
É indizível o número de pais que mantêm o nome na certidão de nascimento dos filhos, mas que não fazem nada além disso.
Há ainda aqueles que, ainda que estejam dentro de casa, nada mais fazem a não ser estarem dentro de casa, e, quando muito, suprem a necessidade básica de alimentos e vestimentas.
É importante falar das inúmeras possibilidades de aborto paterno.
Há os pais que, dentro de casa, não auxiliam em nada sua esposa. Não trocam fraldas. Não dão banho. Não dão comida. Não sabem o remédio que o bebê deve tomar, caso haja febre. Não sabem que o bebê deve começar a estudar na próxima semana. Não sabem o nome da professora. Não sabem a série da criança. Não sabem se precisa de materiais ou uniforme. Aliás, nem sabem o número do uniforme que o filho veste.
Há aqueles que, quando se separam das mulheres, se separam também dos filhos. Não interessa a situação da separação: se foi amena, se foi conturbada. Os pais simplesmente ignoram que têm filhos. Alguns somem completamente. Outros passam a ser pais de finais de semana. Aqueles, quando muito, enviam uma pensão de duzentos reais para suprirem a necessidade de leite (uns 90,00 por mês)*, de fraldas (uns 120,00 por mês)*, de material escolar (uns 300,00 por ano)*, de roupas e calçados (uns 500.00 por ano)*, de remédios (sem cálculo possível)*, da escola (uns 400.00 por mês)*, de plano de saúde (uns 150,00 por mês)*... sem falar em outras despesas, tais como recreação e alimentação.
Os de finais de semana, como o nome diz, aparecem no final de semana, mas não durante ele todo. E não durante todos. Não conseguem conciliar festas, mulheres, sexo casual, trabalho (quando há) com a presença dos filhos. No final de semana que vão namorar, não há como ser pai. No final de semana que vão ser pai, só pode ser por um tempo... algo em torno de 20 minutos a uma hora e meia. Esses ainda têm um ônus maior: quase nunca participam financeiramente, Ora, e por que deveriam? Eles não são presentes?
Em todos os casos, os pais perdem muito.
Perdem as primeiras palavras, os primeiros escritos, as primeiras brincadeiras. Não veem a criança aprender a comer sozinha, não sabem como foi no primeiro dia de aula, não vão ter as histórias dos erros fonéticos pra contar.
Esses pais não sabem nada de seus filhos.
Ainda que se coloquem como pais presentes, nunca saberão o que é acordar e ouvir a voz de um pequeno ser dizendo bom dia. Nunca saberão como é estar ao lado de um bebê que vai desenvolvendo gosto por música, por dança, por artes.
Acreditam que são insubstituíveis. Até que chegue alguém que supra todas essas ausências.
Alguém que pegue no colo, que brinque de pegar, que ensine a escrever, que conte histórias, que ouça histórias, que solte pipa, que ensine a amarrar o cadarço, que esteja do lado, que seja herói. Alguém que, um dia, passe a receber o título de pai. Ou não. Não precisa, necessariamente, ser outro homem.
Pode ser a própria mãe. Aquela que sempre esteve do lado. Que escolheu um ambiente de paz para criar o filho. Que preferiu estar ao lado do ser que mais ama. Que lutou para que o filho estivesse bem. Que acorda cedo para levar o bebê à creche e depois vai trabalhar. Que trabalha muito porque é preciso suprir todas as necessidades do filho. Que sempre trabalhou muito porque, muitas vezes, o pai, que por algum tempo esteve por perto, não se preocupava com as questões financeiras e sobrecarregava a mulher, ainda que o trabalho excessivo da esposa tenha sido uma de suas desculpas para fazer do relacionamento um caos: traindo, indo a festas, se envolvendo com pessoas que desrespeitavam o casamento, vivendo bebedices (mas isso é assunto pra outra crônica).
Muitas vezes, o herói de que a criança precisa não é aquele que tem força física, mas o que tem força de caráter: é honesto, presente, cuidador e amigo, E, nesse caso, não precisa ser o pai biológico. Pode ser outro. Ou pode ser a mãe mesmo, porque, como nos contam as estatísticas, pais que abortam são cada vez mais presentes em nossa sociedade. E olha só que ironia, eles conseguiram ser presentes, ainda que da pior maneira.


* Valores aproximados
P.S. Não me ative à figura da mãe que também pode abandonar o filho porque a mídia já faz isso. a mídia sempre relata acerca de mães que abortam quando escolhem que o bebê não nasça, ou quando abandonam seus filhos. Essas não precisam de mais destaque. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O COMUM DA UNIÃO

Ela era militante.
Ele era se partido.

Ela pregava empatia.
Ele isso não conhecia.

Ela queria estar junto.
Ele se via em prisão.

Ela doou-se com tudo.
Ele nem o coração.

Ela cansou-se da espera.
Ele nem mesmo notou.

Ela bateu forte a porta.
Ele não acreditou.

Ela trocou de endereço.
Ele atrás dela foi.

Ela perdeu o sentimento.
Ele o reencontrou.

Ela pôs fim à história.
Ele deu início à dor.  

28/02/2017

domingo, 23 de abril de 2017

ELA NÃO MUDA, ORA.

- Porque ela não muda nunca.
Essa foi a resposta dele quando perguntado sobre por que se separara.
Esqueceu-se de dizer, porém, que foi ela quem foi embora. Não que isso faça tanta diferença, mas certamente deve contar quando perguntarem sobre quem cansou primeiro.
Enquanto ele respondia a essa pergunta, bebia mais um copo de cerveja. Bebida que sempre menosprezara durante o casamento. Após dar mais um gole, enlaçava a mulher que o acompanhava naquele salão e trazia-a mais para perto de si, a fim de beijar-lhe a boca.
Enquanto isso, ela, a mulher que ele afirmou incisivamente que não mudava nunca, estava em casa cuidando do filho.
Pela manhã, a mulher e o filho acordaram cedo. Ela arrumou as coisas da criança, porque o pai dissera na noite anterior que viria buscar a cria a fim de irem à avó. Isso se daria entre as 8 e 9 da manhã. Não chegou no horário. Como poderia tendo ido se deitar mais de 4:30 da manhã? Como poderia manter sua fala? Como poderia afirmar que sua prioridade continuava sendo o filho? Ora, como continuar uma atitude que não existia antes?
Durante o tempo em que estavam juntos, nem sempre cuidava do básico da criança. Não era um mau pai, mas não conseguia deixar o celular de lado e dar atenção à criança. Tanto o é que, hoje, o pequeno não pode ver um celular que dá birra.  
Não contou tudo. Não disse que a mulher possuía muitos defeitos, mas que tentara corrigir-se. Não disse que, no último mês, era ela quem cuidava das necessidades da criança sozinha. Coisa que fazia também quando estavam juntos. Não disse que ele se negara a mudar ainda quando estavam juntos. Não se lembrou que dissera a quem era próximo dele que não pretendia abandonar as práticas que prejudicavam o casamento. Não dissera que saía sozinho sem a então esposa. Não. Não dissera nada disso.
Lembrara-se apenas de dizer que a ex não mudava nunca. 
Que ela brigava, que ela falava alto, que ela era uma mulher arredia. Que ela queria atenção e não admitia a ideia de privacidade no casamento. Também dissera que ela era controladora e que seu casamento era uma prisão.
Tudo isso foi dito enquanto tomava bebidas alcoólicas e abraçava outra mulher. Na sequência convidou-a para dançar. Terminaram a noite juntos. 
Mas, no fim, era ela quem não prestava. 
Chegou às 10 para buscar o filho. Esse é o horário quando a criança dorme. Mas ele não sabe. Ele não conhece a rotina do pequeno. 
Riu sarcasticamente quando perguntado sobre onde passara a noite e se sua abstinência de sono não perturbaria a direção do carro onde estava o bebê. Fez o que sabia fazer bem. Riu dela. Cruelmente. Ignorou-a. Fê-la saber que, para ele, ela de nada servia. Não a surpreendeu. Ela já estava acostumada.
Levou a criança acompanhado de pessoas que, durante o casamento, afirmavam que ele era melhor antes: solteiro, frequentador de festas, típico bebedor. Ele não deve se lembrar disso. Mas ela, a mulher que não muda, ela se lembra. 
A questão é que ela decidiu que isso não a vai ferir mais. Não mais. Cada dia que se passa, ele tem atitudes que comprovam que é melhor assim. Ele não se preocupa com ela. Nem com o filho. Mas faz questão de parecer bom pai. Ele não é presente. Não está presente. Não quer saber. Não liga, não pergunta, não se interessa. 
Mas a culpa de não estarem juntos é dela.  Só dela. Porque, afinal, ela não muda nunca.

domingo, 9 de abril de 2017

Liberdade? Talvez não.

Liberdade não é isso que se vê por aí. Não mesmo. 
Liberdade é poder escolher. 
Escolher ficar mesmo podendo ir.
Escolher ser fiel, mesmo tendo dezenas de pessoas querendo te ter por perto.
Escolher permanecer amando, mesmo quando as lutas vêm.
Escolher seguir suas crenças, mesmo quando o mundo te dita outras regras.
Liberdade é poder escolher. 
Escolher o amor em lugar de amigos que depreciam quem está do seu lado.
Escolher cuidar quando o outro está doente mesmo tendo mil festas a que ir.
Liberdade não é, nem de longe, ficar bebendo toda noite (ou quase todas). 
Não é sair com amigos e deixar sua parceira (ou parceiro) em casa sozinho.
Não é deixar de dizer que ama porque o outro já sabe disso.
Liberdade é saber que, há algum tempo, você fez uma escolha para a vida.
É saber que você tem responsabilidades, compromissos, promessas.
Liberdade não é beijar várias bocas em poucos dias.
Não. 
Liberdade é outra coisa.
Quando você se deita na cama e sabe que tem do seu lado alguém que te ama e que seria capaz de dar o mundo a você se fosse preciso, isso é liberdade.
Quando você acorda e sabe que aquela pessoa esteve pensando em você por um bom tempo, isso é liberdade.
Saber que o fruto do amor de vocês é uma vida linda e pequena e que depende totalmente dos exemplos de amor que tem, isso é liberdade.
Liberdade não é colocar senha no celular e proibir que vejam suas conversas.
Não é conversar com pessoas que fizeram parte do seu passado e achar que tudo bem.
Não é diminuir quem está do seu lado fazendo-o acreditar que ele nunca te fez feliz, que nunca foi suficiente.
Não. 
Liberdade é escolha. 
Liberdade é poder estar sozinho, mas escolher estar com quem jamais te deixaria só.
É escolher estar com quem te consola na dor.
É escolher ficar com quem sonha seus sonhos.
É notar que o outro tem falhas, mas perceber também quando ele tenta melhorar com diálogos, promessas, renúncias.
Sabe, liberdade não é isso aí que tem sido disseminado na cabeça de quem já amou.
Liberdade é outra coisa.
Liberdade é escolher "pousar ao teu lado, podendo voar. Podendo encontrar até outros ninhos, outros caminhos, escolher ficar."

terça-feira, 28 de março de 2017

NOTAS SOBRE ELA II


Ela chorou. Gritou. Pediu. Implorou. 
Por fim fizeram-na acreditar que ela é quem tinha errado. Que ela é quem tinha perdido. Ela acreditou que todos os problemas aconteceram por culpa dela. Porque ela amava demais. Queria demais. Pedia abraço. Queria presença. 
Mas aí ela se lembrou. Não era bem assim. Não mesmo. De jeito nenhum.
Ela trabalhava feito louca. Cuidava do filho. Estudava aos fins de semana. Trabalhava quando os outros dormiam. Mantinha-se digna diante de todos os problemas. Ainda que gritasse, tentava conversar.Tirava seus próprios sonhos da lista de prioridades para bancar o dos outros. Daí, quando as coisas foram se equilibrando pro outro lado, ela ficou como culpada? Não mesmo! Não era. Agora ela entendeu. Decidiu sorrir. Ser feliz. As pessoas falam de qualquer jeito.
Em um dia ela descobriu o quanto ela era ingênua. E se sentiu mal. Sentiu-se pequena porque se culpou pelo erro do outro. Ora! Não era assim! Ela era fiel. Ela sempre foi fiel. Ela se manteve digna. Percebeu que poderia fazer coisas que haviam tirado dela. Ela poderia andar de cabeça erguida. Ah! Isso era para poucos! Cabeça erguida e consciência tranquila é o néctar de quem é honesto e digno. E ela era. Não tinha o que temer.
Durante o luto do amor que morreu, ela ficou cabisbaixa. Só porque acreditava que fora ela quem matou o amor. Mas não foi. Que amor frágil é esse que não suporta os problemas? O dela suportou. E como. Suportou abandono. Suportou mentiras. Suportou machismo. Suportou desleixo. Suportou ser trocada por amigos, hobbies e mulheres. O dela foi além do limite. Suportou até que transbordou de excesso. Vários excessos. Excesso de amor. Excesso de paixão. Excesso de vontade. Excesso de desejo de conversar. De consertar. Transbordou apenas. Mas então ela percebeu algo. Não importa o que disseram para diminuí-la. Ela era mais. Muito mais.
Enquanto diziam que ela era lixo, outros diziam que ela era o melhor. Enquanto diziam que ela não era suficiente, outros diziam que ela fazia falta. Enquanto uns não se importavam com nada do que ela sentia, outros a viram triste e ofereceram o ombro. Nesse momento ela descobriu. Ela entendeu. Ela era forte. Muito forte. E era amada. Ainda que ela amasse quem dissera a ela que o amor acabou, que ela matou o amor que um dia existiu entre eles, ela percebeu que algo devia mudar. Ainda que aquele amor não acabasse, ela sabia que o amor próprio deveria brotar. E brotou. E cresceu. Agora ela era flor. Flor que desabrochara. Flor que encantava. Flor que sabia se adubar sozinha. Flor que nasceu entre as pedras, e que, por isso mesmo, sabe agora lidar com as durezas da vida. 

sábado, 25 de março de 2017

Notas sobre ela


5:40. Todos os dias. Ela levanta. Esse já é seu quinto ano de rotina exaustiva. Levanta, se arruma e chega no trabalho antes das sete.
É assim seis vezes na semana. O normal é ficar até 12:00 no trabalho. Mas não é sempre assim. Às vezes fica à tarde, e se fica, nesse dia não tem almoço. No quinto ano assim. Talvez tenha jantar. Talvez tenha o pão que a empresa oferece de lanche. Talvez nem isso. Ela não tem tempo. Nem pra comer. Nem pra dormir. Ela não pode adoecer. Tem que ser forte. Segurar a barra. É coluna. Não pode cair. É o quinto ano assim.
Tem dias que ela desaba. Não dá pra ser forte o tempo todo. Ela quis um colo. Um abraço. Recebeu porque pediu. E só. Não foi vista. Ninguém notou seu esgotamento. Seu cansaço. Julgaram-na. Chamaram-na de fraca. Logo ela que trabalha cerca de 12 horas por dia. Todos os dias. Inclusive nos domingos. E ainda tem tempo para o filho. Senta no chão com a criança. Brinca de montar brinquedos. Brinca de bola. Conta história. Faz jantar. Dá banho. Faz dormir. Está do lado quando adoece. Leva ao hospital. À consulta. Acompanha. Logo ela que não sabe o que é dormir oito horas seguidas há cinco anos. Ou mais.
Mas sabe?! Isso não faz dela boa o suficiente. Ela briga. Fala alto. Quer verdades. Quer presença. Pede abraço. Quer do lado. Quer ser notada. Quer colo. Apoio. Ajuda. Companheirismo. Ela não sabe que não tem esse direito. Ela exige muito. Tinha que se contentar com o que tem. Tinha que agradecer porque não passa o que muitos passam. Tinha que fazer mais ainda porque faz pouco. 
Ela não sabe que é assim mesmo?! Pois devia saber! Ela que quis. Agora reclama. Diz que não aguenta. Que vai embora. Que desiste. Fraca. Frouxa. Trouxa. Ela que vá! Vai ficar sabendo o que perdeu. Vai ficar sabendo que estava no céu. Vai ficar sabendo que tinha o de melhor da vida. Vai lembrar que tudo isso é culpa dela. Ora! Como pode isso: ir embora?! Ela que decidiu pôr fim a tudo, não foi? Agora aguenta. Cuida do filho porque não tem essa de fim de semana não. Nem de noite. Nem de dia. Quando der alguém aparece. Quando der. E não adianta chorar. Ela que quis. Ela que decidiu. Fraca. Frouxa. Trouxa. Agora aguenta.
5:40. Ela levanta. Se arruma. Chega no trabalho antes das sete. Tem que trabalhar mesmo. Agora mais ainda. Agora como nunca. E tem que ser forte. Tem que ser coluna. Não pode chorar. Não pode sofrer. Tem um filho. Tem que cuidar porque o filho é dela. Segue o caminho. Agora é tudo responsabilidade dela. E só para constar, foi ela quem saiu perdendo, porque o certo era ficar. Mas ela quis ir... agora aguenta. Fraca. Frouxa. Trouxa.

sábado, 21 de novembro de 2015

Pressupostos de um preconceito invisível numa sociedade utopicamente feliz

 Título grande e tema complexo: duas coisas que, em meu ponto de vista, indiscriminadamente se associam. Dia 20 de novembro é celebrado o dia da Consciência Negra. Nessa oportunidade, tenciona-se levar os indivíduos a se lembrarem de como foi o processo de escravidão aqui no Brasil, assim como relembrar como aconteceu a miscigenação por muitos ignorada.
Não escrevi nada no dia em questão. Preferi observar como seriam as postagens mais disseminadas e o comportamento de algumas pessoas. Nada me surpreendeu, infelizmente.
Três assuntos vieram à tona quando o tema"negro" surgiu: 'cotas raciais', 'uma data específica para se lembrar dos negros' e, claro, não poderia deixar de surgir, 'preconceito não existe'. Afirmações feitas por pessoas que acreditam que estamos em uma sociedade sem problemas e para a qual as mudanças são totalmente dispensáveis.
No início eu me indignei. Depois eu quis argumentar, Por fim, eu ri. Ri muito.
Vamos começar do último ponto: "preconceito não existe". De fato! Ora, que o digam Taís Araújo, Maria Julia Coutinho, Glória Maria, Thiaguinho, Lázaro Ramos, Seu Jorge, Rihanna, Laurence Fishburne, Oprah Winfrey... Isso para mencionar só algumas pessoas, mas há a possibilidade de se listar uma imensa lista, caso queiram. Afirmar que o preconceito não existe é, no mínimo, alienação.
Entender os pressupostos do preconceito talvez ajude algumas pessoas e identificá-lo na sociedade.
O preconceito existe em certas afirmações e/ou piadas, tais como: "É negra, mas é linda!", "Ele é um preto de alma branca", "Negro só vai à escola quando a está construindo", "Por que preto não erra? Porque errar é humano", "Um negro parado é suspeito; correndo é culpado", "De que senzala veio essa negra?", "Onde posso comprar mais (negras) dessa?", "Seu cabelo está molhado? Como? Ele não é impermeável?", "Você se parece com o macaco que vi outro dia no zoológico!", "Você até que é esperto pra um negro...",,, e por aí vai.
Saia de sua redoma de vidro e perceba o preconceito que existe em seu redor, isso quando está longe. Talvez, se você observar mais de perto, vai notar que o racismo está dentro de você e não do lado de fora.
Ainda com os exemplos de pessoas conhecidas ou com a transcrição destas frases pode ser que você não acredite que o preconceito existe. Tudo bem! É totalmente aceitável, sobretudo, se você não está no número de discriminados. E falando em números, vamos a eles.
* Segundo relatório da ONG SaferNet, mais de 86,5 mil casos de ódio a negros e outras etnias foram relatados em 17.291 sites em 2014, aumento de 34,15% em relação a 2013.
* Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.
* Dados do relatório Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014 trazem comparativos específicos sobre as taxas de homicídio de negros e brancos. “Os jovens negros no Brasil são duas vezes e meia mais vítimas de homicídio do que o jovem branco”, alerta a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno. Em algumas localidades, a proporção chega a 13 vezes, como é o caso da Paraíba. “[Isso] revela um quadro agudo e extremamente grave”, acrescenta. Em segundo lugar em relação aos homicídios de jovens negros está Pernambuco, onde o risco é de 11,57 vezes maior, seguido de Alagoas com um coeficiente de 8,75.
Diante disso, fica repetitivo dizer que o preconceito racial existe.
Vamos a outro tópico: "uma data específica para se lembrar dos negros".
Li, em um grupo de whatsapp, que "é um absurdo ter um dia para isso" e que "quase que se decreta feriado nacional por conta de algo tão insignificante". Entendamos a importância deste dia. Primeiro: a data corresponde a uma lei e por conta dela, há feriado em alguns estados do Brasil. Sinto muito se você não está em um deles para desfrutar de um descanso por causa dos negros. E, aproveitando o termo descanso, é esta palavra uma das razões para que nos lembremos de um dia tão importante. Não havia descanso para esse grupo. A escravidão mostrava exatamente qual era o lugar que o negro deveria ocupar. E depois da abolição desta, as consequências de uma visão deturpada a respeito destas pessoas ainda permaneceram. O negro não era mais escravo. Mas também não poderia trabalhar, nem estudar, nem participar de determinadas atividades consideradas "atividades de brancos". Começa aí, então, o processo de exclusão social acentuada.
A partir dessa segregação, os negros tiveram que se ajeitar fora dos centros urbanos, nas ditas (e hoje conhecidas) favelas. Lá, eles construíram casas com os materiais que a natureza permitia, ou ainda, com materiais jogados no lixo pelos brancos. Ganha corpo, então, a desigualdade social. O que isso tem a ver com o dia da Consciência Negra? Bem, essa data serve para lembrar que muitos foram aqueles que sofreram justamente pela falta de consciência de que o negro existe. Os brancos daquela época desconsideraram o fato de que o negro também precisava de recursos básicos para sua sobrevivência. E nem vou aqui entrar no mérito do Zumbi dos Palmares e nem da Criação do Movimento Negro: fatores importantíssimos para a visibilidade desta data.
Voltando ao ponto de desigualdade social, torna-se possível, portanto, falar a respeito das cotas raciais.
Como professora, já me cansei de ouvir que, se não fossem as cotas, esse ou aquele aluno teria passado no vestibular, mas... como existem as cotas... Esse pensamento se deve ao fato de que o cotista teve uma nota menor do que a do não cotista (talvez porque o cotista tenha demorado a entrar na escola, ou porque tinha que trabalhar ao mesmo tempo em que estudava, ou porque convive com pais que são usuários, ou porque não pôde ter acesso a aulas particulares, ou porque não pôde pagar escola particular onde o ensino é notoriamente melhor, ou por diversos outros possíveis fatores). Enfim, alunos chegam a mim dizendo que se não fosse o cotista, eles já estavam na universidade. Bem, o que dizer do fato de sua nota ter sido inferior a  outras pessoas não cotistas? Sinto dizer, a realidade é dura, mas o cotista pode estar menos preparado que você, se a questão é a nota, mas você também está menos preparado que outros concorrentes, se esse raciocínio for um bom argumento.
Entenda como funciona a cota para negros. Perceba que não basta ser negro. É preciso ser negro, ter feito o ensino médio em escola pública e ter uma renda específica por pessoa da família. Enfim, o negro vai disputar uma vaga com um grupo razoavelmente grande e você vai disputar com outro grupo.
Cinquenta por cento das vagas nas universidades são para ampla concorrência. Os outros cinquenta por cento são para estudantes de escola pública e é neste grupo que o negro entra. A disposição de vagas para negros ainda leva em consideração os dados do IBGE acerca da população negra em cada estado, o que quer dizer que a porcentagem de vagas para esse grupo não é a mesma em todos os estados. Então, entenda: quando você fala que "tudo bem ter cotas para estudantes de escola pública, mas que não tem nada a ver ter cotas para negros", o que eu leio é "não entendo nada sobre cotas e estou reproduzindo um discurso alheio que achei bonitinho", simplesmente porque não tem cota específica para negros, a não ser que este seja estudante de escola pública, ou seja, ele já entraria na cota de qualquer maneira.
O tema é polêmico, mas a análise é simples. Dispa-se de seus conceitos já determinados e queira entender que há, sim, a necessidade de algumas medidas acerca da população de negros.
E, antes de concluir, devo mencionar dois detalhes: primeiro, não sou adepta da palavra "negro" até porque não é esse o termo usado pela Constituição Federal, mas, para evitar perda de foco daquele que lê, preferi aderir a este termo; por fim, é importante lembrar que as medidas relacionadas a cotas são medidas provisórias, com data prevista de término para 2022.

Sem mais, beijos de luz.

Bibliografia
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-05/jovens-negros-sao-mais-vulneraveis-violencia-no-brasil-mostra-relatorio
http://www.clickgratis.com.br/fotos-imagens/fofocas/racismo-relembre-famosos-internacionais-que-ja-sofreram-preconceito-racial/
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/negros-tem-26-vezes-mais-chances-de-morrer-que-brancos-no-brasil.html
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/pesquisa-comprova-que-preconceito-atinge-993-do-ambiente-escolar-no-brasil-bmg041fsqi54m7htmbm3emm32
http://vestibular.brasilescola.com/cotas/lei-das-cotas.htm