domingo, 23 de abril de 2017

ELA NÃO MUDA, ORA.

- Porque ela não muda nunca.
Essa foi a resposta dele quando perguntado sobre por que se separara.
Esqueceu-se de dizer, porém, que foi ela quem foi embora. Não que isso faça tanta diferença, mas certamente deve contar quando perguntarem sobre quem cansou primeiro.
Enquanto ele respondia a essa pergunta, bebia mais um copo de cerveja. Bebida que sempre menosprezara durante o casamento. Após dar mais um gole, enlaçava a mulher que o acompanhava naquele salão e trazia-a mais para perto de si, a fim de beijar-lhe a boca.
Enquanto isso, ela, a mulher que ele afirmou incisivamente que não mudava nunca, estava em casa cuidando do filho.
Pela manhã, a mulher e o filho acordaram cedo. Ela arrumou as coisas da criança, porque o pai dissera na noite anterior que viria buscar a cria a fim de irem à avó. Isso se daria entre as 8 e 9 da manhã. Não chegou no horário. Como poderia tendo ido se deitar mais de 4:30 da manhã? Como poderia manter sua fala? Como poderia afirmar que sua prioridade continuava sendo o filho? Ora, como continuar uma atitude que não existia antes?
Durante o tempo em que estavam juntos, nem sempre cuidava do básico da criança. Não era um mau pai, mas não conseguia deixar o celular de lado e dar atenção à criança. Tanto o é que, hoje, o pequeno não pode ver um celular que dá birra.  
Não contou tudo. Não disse que a mulher possuía muitos defeitos, mas que tentara corrigir-se. Não disse que, no último mês, era ela quem cuidava das necessidades da criança sozinha. Coisa que fazia também quando estavam juntos. Não disse que ele se negara a mudar ainda quando estavam juntos. Não se lembrou que dissera a quem era próximo dele que não pretendia abandonar as práticas que prejudicavam o casamento. Não dissera que saía sozinho sem a então esposa. Não. Não dissera nada disso.
Lembrara-se apenas de dizer que a ex não mudava nunca. 
Que ela brigava, que ela falava alto, que ela era uma mulher arredia. Que ela queria atenção e não admitia a ideia de privacidade no casamento. Também dissera que ela era controladora e que seu casamento era uma prisão.
Tudo isso foi dito enquanto tomava bebidas alcoólicas e abraçava outra mulher. Na sequência convidou-a para dançar. Terminaram a noite juntos. 
Mas, no fim, era ela quem não prestava. 
Chegou às 10 para buscar o filho. Esse é o horário quando a criança dorme. Mas ele não sabe. Ele não conhece a rotina do pequeno. 
Riu sarcasticamente quando perguntado sobre onde passara a noite e se sua abstinência de sono não perturbaria a direção do carro onde estava o bebê. Fez o que sabia fazer bem. Riu dela. Cruelmente. Ignorou-a. Fê-la saber que, para ele, ela de nada servia. Não a surpreendeu. Ela já estava acostumada.
Levou a criança acompanhado de pessoas que, durante o casamento, afirmavam que ele era melhor antes: solteiro, frequentador de festas, típico bebedor. Ele não deve se lembrar disso. Mas ela, a mulher que não muda, ela se lembra. 
A questão é que ela decidiu que isso não a vai ferir mais. Não mais. Cada dia que se passa, ele tem atitudes que comprovam que é melhor assim. Ele não se preocupa com ela. Nem com o filho. Mas faz questão de parecer bom pai. Ele não é presente. Não está presente. Não quer saber. Não liga, não pergunta, não se interessa. 
Mas a culpa de não estarem juntos é dela.  Só dela. Porque, afinal, ela não muda nunca.

domingo, 9 de abril de 2017

Liberdade? Talvez não.

Liberdade não é isso que se vê por aí. Não mesmo. 
Liberdade é poder escolher. 
Escolher ficar mesmo podendo ir.
Escolher ser fiel, mesmo tendo dezenas de pessoas querendo te ter por perto.
Escolher permanecer amando, mesmo quando as lutas vêm.
Escolher seguir suas crenças, mesmo quando o mundo te dita outras regras.
Liberdade é poder escolher. 
Escolher o amor em lugar de amigos que depreciam quem está do seu lado.
Escolher cuidar quando o outro está doente mesmo tendo mil festas a que ir.
Liberdade não é, nem de longe, ficar bebendo toda noite (ou quase todas). 
Não é sair com amigos e deixar sua parceira (ou parceiro) em casa sozinho.
Não é deixar de dizer que ama porque o outro já sabe disso.
Liberdade é saber que, há algum tempo, você fez uma escolha para a vida.
É saber que você tem responsabilidades, compromissos, promessas.
Liberdade não é beijar várias bocas em poucos dias.
Não. 
Liberdade é outra coisa.
Quando você se deita na cama e sabe que tem do seu lado alguém que te ama e que seria capaz de dar o mundo a você se fosse preciso, isso é liberdade.
Quando você acorda e sabe que aquela pessoa esteve pensando em você por um bom tempo, isso é liberdade.
Saber que o fruto do amor de vocês é uma vida linda e pequena e que depende totalmente dos exemplos de amor que tem, isso é liberdade.
Liberdade não é colocar senha no celular e proibir que vejam suas conversas.
Não é conversar com pessoas que fizeram parte do seu passado e achar que tudo bem.
Não é diminuir quem está do seu lado fazendo-o acreditar que ele nunca te fez feliz, que nunca foi suficiente.
Não. 
Liberdade é escolha. 
Liberdade é poder estar sozinho, mas escolher estar com quem jamais te deixaria só.
É escolher estar com quem te consola na dor.
É escolher ficar com quem sonha seus sonhos.
É notar que o outro tem falhas, mas perceber também quando ele tenta melhorar com diálogos, promessas, renúncias.
Sabe, liberdade não é isso aí que tem sido disseminado na cabeça de quem já amou.
Liberdade é outra coisa.
Liberdade é escolher "pousar ao teu lado, podendo voar. Podendo encontrar até outros ninhos, outros caminhos, escolher ficar."