- Porque ela não muda nunca.
Essa foi a resposta dele quando perguntado sobre por que se separara.
Esqueceu-se de dizer, porém, que foi ela quem foi embora. Não que isso faça tanta diferença, mas certamente deve contar quando perguntarem sobre quem cansou primeiro.
Enquanto ele respondia a essa pergunta, bebia mais um copo de cerveja. Bebida que sempre menosprezara durante o casamento. Após dar mais um gole, enlaçava a mulher que o acompanhava naquele salão e trazia-a mais para perto de si, a fim de beijar-lhe a boca.
Enquanto isso, ela, a mulher que ele afirmou incisivamente que não mudava nunca, estava em casa cuidando do filho.
Pela manhã, a mulher e o filho acordaram cedo. Ela arrumou as coisas da criança, porque o pai dissera na noite anterior que viria buscar a cria a fim de irem à avó. Isso se daria entre as 8 e 9 da manhã. Não chegou no horário. Como poderia tendo ido se deitar mais de 4:30 da manhã? Como poderia manter sua fala? Como poderia afirmar que sua prioridade continuava sendo o filho? Ora, como continuar uma atitude que não existia antes?
Durante o tempo em que estavam juntos, nem sempre cuidava do básico da criança. Não era um mau pai, mas não conseguia deixar o celular de lado e dar atenção à criança. Tanto o é que, hoje, o pequeno não pode ver um celular que dá birra.
Não contou tudo. Não disse que a mulher possuía muitos defeitos, mas que tentara corrigir-se. Não disse que, no último mês, era ela quem cuidava das necessidades da criança sozinha. Coisa que fazia também quando estavam juntos. Não disse que ele se negara a mudar ainda quando estavam juntos. Não se lembrou que dissera a quem era próximo dele que não pretendia abandonar as práticas que prejudicavam o casamento. Não dissera que saía sozinho sem a então esposa. Não. Não dissera nada disso.
Lembrara-se apenas de dizer que a ex não mudava nunca.
Que ela brigava, que ela falava alto, que ela era uma mulher arredia. Que ela queria atenção e não admitia a ideia de privacidade no casamento. Também dissera que ela era controladora e que seu casamento era uma prisão.
Tudo isso foi dito enquanto tomava bebidas alcoólicas e abraçava outra mulher. Na sequência convidou-a para dançar. Terminaram a noite juntos.
Mas, no fim, era ela quem não prestava.
Chegou às 10 para buscar o filho. Esse é o horário quando a criança dorme. Mas ele não sabe. Ele não conhece a rotina do pequeno.
Riu sarcasticamente quando perguntado sobre onde passara a noite e se sua abstinência de sono não perturbaria a direção do carro onde estava o bebê. Fez o que sabia fazer bem. Riu dela. Cruelmente. Ignorou-a. Fê-la saber que, para ele, ela de nada servia. Não a surpreendeu. Ela já estava acostumada.
Levou a criança acompanhado de pessoas que, durante o casamento, afirmavam que ele era melhor antes: solteiro, frequentador de festas, típico bebedor. Ele não deve se lembrar disso. Mas ela, a mulher que não muda, ela se lembra.
A questão é que ela decidiu que isso não a vai ferir mais. Não mais. Cada dia que se passa, ele tem atitudes que comprovam que é melhor assim. Ele não se preocupa com ela. Nem com o filho. Mas faz questão de parecer bom pai. Ele não é presente. Não está presente. Não quer saber. Não liga, não pergunta, não se interessa.
Mas a culpa de não estarem juntos é dela. Só dela. Porque, afinal, ela não muda nunca.