sábado, 21 de novembro de 2015

Pressupostos de um preconceito invisível numa sociedade utopicamente feliz

 Título grande e tema complexo: duas coisas que, em meu ponto de vista, indiscriminadamente se associam. Dia 20 de novembro é celebrado o dia da Consciência Negra. Nessa oportunidade, tenciona-se levar os indivíduos a se lembrarem de como foi o processo de escravidão aqui no Brasil, assim como relembrar como aconteceu a miscigenação por muitos ignorada.
Não escrevi nada no dia em questão. Preferi observar como seriam as postagens mais disseminadas e o comportamento de algumas pessoas. Nada me surpreendeu, infelizmente.
Três assuntos vieram à tona quando o tema"negro" surgiu: 'cotas raciais', 'uma data específica para se lembrar dos negros' e, claro, não poderia deixar de surgir, 'preconceito não existe'. Afirmações feitas por pessoas que acreditam que estamos em uma sociedade sem problemas e para a qual as mudanças são totalmente dispensáveis.
No início eu me indignei. Depois eu quis argumentar, Por fim, eu ri. Ri muito.
Vamos começar do último ponto: "preconceito não existe". De fato! Ora, que o digam Taís Araújo, Maria Julia Coutinho, Glória Maria, Thiaguinho, Lázaro Ramos, Seu Jorge, Rihanna, Laurence Fishburne, Oprah Winfrey... Isso para mencionar só algumas pessoas, mas há a possibilidade de se listar uma imensa lista, caso queiram. Afirmar que o preconceito não existe é, no mínimo, alienação.
Entender os pressupostos do preconceito talvez ajude algumas pessoas e identificá-lo na sociedade.
O preconceito existe em certas afirmações e/ou piadas, tais como: "É negra, mas é linda!", "Ele é um preto de alma branca", "Negro só vai à escola quando a está construindo", "Por que preto não erra? Porque errar é humano", "Um negro parado é suspeito; correndo é culpado", "De que senzala veio essa negra?", "Onde posso comprar mais (negras) dessa?", "Seu cabelo está molhado? Como? Ele não é impermeável?", "Você se parece com o macaco que vi outro dia no zoológico!", "Você até que é esperto pra um negro...",,, e por aí vai.
Saia de sua redoma de vidro e perceba o preconceito que existe em seu redor, isso quando está longe. Talvez, se você observar mais de perto, vai notar que o racismo está dentro de você e não do lado de fora.
Ainda com os exemplos de pessoas conhecidas ou com a transcrição destas frases pode ser que você não acredite que o preconceito existe. Tudo bem! É totalmente aceitável, sobretudo, se você não está no número de discriminados. E falando em números, vamos a eles.
* Segundo relatório da ONG SaferNet, mais de 86,5 mil casos de ódio a negros e outras etnias foram relatados em 17.291 sites em 2014, aumento de 34,15% em relação a 2013.
* Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.
* Dados do relatório Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014 trazem comparativos específicos sobre as taxas de homicídio de negros e brancos. “Os jovens negros no Brasil são duas vezes e meia mais vítimas de homicídio do que o jovem branco”, alerta a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno. Em algumas localidades, a proporção chega a 13 vezes, como é o caso da Paraíba. “[Isso] revela um quadro agudo e extremamente grave”, acrescenta. Em segundo lugar em relação aos homicídios de jovens negros está Pernambuco, onde o risco é de 11,57 vezes maior, seguido de Alagoas com um coeficiente de 8,75.
Diante disso, fica repetitivo dizer que o preconceito racial existe.
Vamos a outro tópico: "uma data específica para se lembrar dos negros".
Li, em um grupo de whatsapp, que "é um absurdo ter um dia para isso" e que "quase que se decreta feriado nacional por conta de algo tão insignificante". Entendamos a importância deste dia. Primeiro: a data corresponde a uma lei e por conta dela, há feriado em alguns estados do Brasil. Sinto muito se você não está em um deles para desfrutar de um descanso por causa dos negros. E, aproveitando o termo descanso, é esta palavra uma das razões para que nos lembremos de um dia tão importante. Não havia descanso para esse grupo. A escravidão mostrava exatamente qual era o lugar que o negro deveria ocupar. E depois da abolição desta, as consequências de uma visão deturpada a respeito destas pessoas ainda permaneceram. O negro não era mais escravo. Mas também não poderia trabalhar, nem estudar, nem participar de determinadas atividades consideradas "atividades de brancos". Começa aí, então, o processo de exclusão social acentuada.
A partir dessa segregação, os negros tiveram que se ajeitar fora dos centros urbanos, nas ditas (e hoje conhecidas) favelas. Lá, eles construíram casas com os materiais que a natureza permitia, ou ainda, com materiais jogados no lixo pelos brancos. Ganha corpo, então, a desigualdade social. O que isso tem a ver com o dia da Consciência Negra? Bem, essa data serve para lembrar que muitos foram aqueles que sofreram justamente pela falta de consciência de que o negro existe. Os brancos daquela época desconsideraram o fato de que o negro também precisava de recursos básicos para sua sobrevivência. E nem vou aqui entrar no mérito do Zumbi dos Palmares e nem da Criação do Movimento Negro: fatores importantíssimos para a visibilidade desta data.
Voltando ao ponto de desigualdade social, torna-se possível, portanto, falar a respeito das cotas raciais.
Como professora, já me cansei de ouvir que, se não fossem as cotas, esse ou aquele aluno teria passado no vestibular, mas... como existem as cotas... Esse pensamento se deve ao fato de que o cotista teve uma nota menor do que a do não cotista (talvez porque o cotista tenha demorado a entrar na escola, ou porque tinha que trabalhar ao mesmo tempo em que estudava, ou porque convive com pais que são usuários, ou porque não pôde ter acesso a aulas particulares, ou porque não pôde pagar escola particular onde o ensino é notoriamente melhor, ou por diversos outros possíveis fatores). Enfim, alunos chegam a mim dizendo que se não fosse o cotista, eles já estavam na universidade. Bem, o que dizer do fato de sua nota ter sido inferior a  outras pessoas não cotistas? Sinto dizer, a realidade é dura, mas o cotista pode estar menos preparado que você, se a questão é a nota, mas você também está menos preparado que outros concorrentes, se esse raciocínio for um bom argumento.
Entenda como funciona a cota para negros. Perceba que não basta ser negro. É preciso ser negro, ter feito o ensino médio em escola pública e ter uma renda específica por pessoa da família. Enfim, o negro vai disputar uma vaga com um grupo razoavelmente grande e você vai disputar com outro grupo.
Cinquenta por cento das vagas nas universidades são para ampla concorrência. Os outros cinquenta por cento são para estudantes de escola pública e é neste grupo que o negro entra. A disposição de vagas para negros ainda leva em consideração os dados do IBGE acerca da população negra em cada estado, o que quer dizer que a porcentagem de vagas para esse grupo não é a mesma em todos os estados. Então, entenda: quando você fala que "tudo bem ter cotas para estudantes de escola pública, mas que não tem nada a ver ter cotas para negros", o que eu leio é "não entendo nada sobre cotas e estou reproduzindo um discurso alheio que achei bonitinho", simplesmente porque não tem cota específica para negros, a não ser que este seja estudante de escola pública, ou seja, ele já entraria na cota de qualquer maneira.
O tema é polêmico, mas a análise é simples. Dispa-se de seus conceitos já determinados e queira entender que há, sim, a necessidade de algumas medidas acerca da população de negros.
E, antes de concluir, devo mencionar dois detalhes: primeiro, não sou adepta da palavra "negro" até porque não é esse o termo usado pela Constituição Federal, mas, para evitar perda de foco daquele que lê, preferi aderir a este termo; por fim, é importante lembrar que as medidas relacionadas a cotas são medidas provisórias, com data prevista de término para 2022.

Sem mais, beijos de luz.

Bibliografia
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-05/jovens-negros-sao-mais-vulneraveis-violencia-no-brasil-mostra-relatorio
http://www.clickgratis.com.br/fotos-imagens/fofocas/racismo-relembre-famosos-internacionais-que-ja-sofreram-preconceito-racial/
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/negros-tem-26-vezes-mais-chances-de-morrer-que-brancos-no-brasil.html
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/pesquisa-comprova-que-preconceito-atinge-993-do-ambiente-escolar-no-brasil-bmg041fsqi54m7htmbm3emm32
http://vestibular.brasilescola.com/cotas/lei-das-cotas.htm