Título
grande e tema complexo: duas coisas que, em meu ponto de vista,
indiscriminadamente se associam. Dia 20 de novembro é celebrado o
dia da Consciência Negra. Nessa oportunidade, tenciona-se levar os
indivíduos a se lembrarem de como foi o processo de escravidão aqui
no Brasil, assim como relembrar como aconteceu a miscigenação por
muitos ignorada.
Não
escrevi nada no dia em questão. Preferi observar como seriam as
postagens mais disseminadas e o comportamento de algumas pessoas.
Nada me surpreendeu, infelizmente.
Três
assuntos vieram à tona quando o tema"negro" surgiu: 'cotas
raciais', 'uma data específica para se lembrar dos negros' e, claro,
não poderia deixar de surgir, 'preconceito não existe'. Afirmações
feitas por pessoas que acreditam que estamos em uma sociedade sem
problemas e para a qual as mudanças são totalmente dispensáveis.
No
início eu me indignei. Depois eu quis argumentar, Por fim, eu ri. Ri
muito.
Vamos
começar do último ponto: "preconceito não existe". De
fato! Ora, que o digam Taís Araújo, Maria Julia Coutinho, Glória
Maria, Thiaguinho, Lázaro Ramos, Seu Jorge, Rihanna, Laurence
Fishburne, Oprah Winfrey... Isso para mencionar só algumas pessoas,
mas há a possibilidade de se listar uma imensa lista, caso queiram.
Afirmar que o preconceito não existe é, no mínimo, alienação.
Entender
os pressupostos do preconceito talvez ajude algumas pessoas e
identificá-lo na sociedade.
O
preconceito existe em certas afirmações e/ou piadas, tais como: "É
negra, mas é linda!", "Ele é um preto de alma branca",
"Negro só vai à escola quando a está construindo", "Por
que preto não erra? Porque errar é humano", "Um negro
parado é suspeito; correndo é culpado", "De que senzala
veio essa negra?", "Onde posso comprar mais (negras)
dessa?", "Seu cabelo está molhado? Como? Ele não é
impermeável?", "Você se parece com o macaco que vi outro
dia no zoológico!", "Você até que é esperto pra um
negro...",,, e por aí vai.
Saia
de sua redoma de vidro e perceba o preconceito que existe em seu
redor, isso quando está longe. Talvez, se você observar mais de
perto, vai notar que o racismo está dentro de você e não do lado
de fora.
Ainda
com os exemplos de pessoas conhecidas ou com a transcrição destas
frases pode ser que você não acredite que o preconceito existe.
Tudo bem! É totalmente aceitável, sobretudo, se você não está no
número de discriminados. E falando em números, vamos a eles.
*
Segundo relatório da ONG SaferNet, mais de 86,5 mil casos de ódio a
negros e outras etnias foram relatados em 17.291 sites em 2014,
aumento de 34,15% em relação a 2013.
*
Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000
são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A
maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8%
dos casos chegam a ser julgados.
*
Dados do relatório
Índice
de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014
trazem
comparativos
específicos sobre as taxas de homicídio de negros e brancos. “Os
jovens negros no Brasil são duas vezes e meia mais vítimas de
homicídio do que o jovem branco”, alerta a diretora executiva do
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno. Em algumas
localidades, a proporção chega a 13 vezes, como é o caso da
Paraíba. “[Isso] revela um quadro agudo e extremamente grave”,
acrescenta. Em segundo lugar em relação aos homicídios de jovens
negros está Pernambuco, onde o risco é de 11,57 vezes maior,
seguido de Alagoas com um coeficiente de 8,75.
Diante
disso, fica repetitivo dizer que o preconceito racial existe.
Vamos
a outro tópico: "uma data específica para se lembrar dos
negros".
Li,
em um grupo de whatsapp, que "é um absurdo ter um dia para
isso" e que "quase que se decreta feriado nacional por
conta de algo tão insignificante". Entendamos a importância
deste dia. Primeiro: a data corresponde a uma lei e por conta dela,
há feriado em alguns estados do Brasil. Sinto muito se você não
está em um deles para desfrutar de um descanso por causa dos negros.
E, aproveitando o termo descanso, é esta palavra uma das razões
para que nos lembremos de um dia tão importante. Não havia descanso
para esse grupo. A escravidão mostrava exatamente qual era o lugar
que o negro deveria ocupar. E depois da abolição desta, as
consequências de uma visão deturpada a respeito destas pessoas
ainda permaneceram. O negro não era mais escravo. Mas também não
poderia trabalhar, nem estudar, nem participar de determinadas
atividades consideradas "atividades de brancos". Começa
aí, então, o processo de exclusão social acentuada.
A
partir dessa segregação, os negros tiveram que se ajeitar fora dos
centros urbanos, nas ditas (e hoje conhecidas) favelas. Lá, eles
construíram casas com os materiais que a natureza permitia, ou
ainda, com materiais jogados no lixo pelos brancos. Ganha corpo,
então, a desigualdade social. O que isso tem a ver com o dia da
Consciência Negra? Bem, essa data serve para lembrar que muitos
foram aqueles que sofreram justamente pela falta de consciência de
que o negro existe. Os brancos daquela época desconsideraram o fato
de que o negro também precisava de recursos básicos para sua
sobrevivência. E nem vou aqui entrar no mérito do Zumbi dos
Palmares e nem da Criação do Movimento Negro: fatores
importantíssimos para a visibilidade desta data.
Voltando
ao ponto de desigualdade social, torna-se possível, portanto, falar
a respeito das cotas raciais.
Como
professora, já me cansei de ouvir que, se não fossem as cotas, esse
ou aquele aluno teria passado no vestibular, mas... como existem as
cotas... Esse pensamento se deve ao fato de que o cotista teve uma
nota menor do que a do não cotista (talvez porque o cotista tenha
demorado a entrar na escola, ou porque tinha que trabalhar ao mesmo
tempo em que estudava, ou porque convive com pais que são usuários,
ou porque não pôde ter acesso a aulas particulares, ou porque não
pôde pagar escola particular onde o ensino é notoriamente melhor,
ou por diversos outros possíveis fatores). Enfim, alunos chegam a
mim dizendo que se não fosse o cotista, eles já estavam na
universidade. Bem, o que dizer do fato de sua nota ter sido inferior
a outras pessoas não cotistas? Sinto dizer, a realidade é
dura, mas o cotista pode estar menos preparado que você, se a
questão é a nota, mas você também está menos preparado que
outros concorrentes, se esse raciocínio for um bom argumento.
Entenda
como funciona a cota para negros. Perceba que não basta ser negro. É
preciso ser negro, ter feito o ensino médio em escola pública e ter
uma renda específica por pessoa da família. Enfim, o negro vai
disputar uma vaga com um grupo razoavelmente grande e você vai
disputar com outro grupo.
Cinquenta
por cento das vagas nas universidades são para ampla concorrência.
Os outros cinquenta por cento são para estudantes de escola pública
e é neste grupo que o negro entra. A disposição de vagas para
negros ainda leva em consideração os dados do IBGE acerca da
população negra em cada estado, o que quer dizer que a porcentagem
de vagas para esse grupo não é a mesma em todos os estados. Então,
entenda: quando você fala que "tudo bem ter cotas para
estudantes de escola pública, mas que não tem nada a ver ter cotas
para negros", o que eu leio é "não entendo nada sobre
cotas e estou reproduzindo um discurso alheio que achei bonitinho",
simplesmente porque não tem cota específica para negros, a não ser
que este seja estudante de escola pública, ou seja, ele já entraria
na cota de qualquer maneira.
O
tema é polêmico, mas a análise é simples. Dispa-se de seus
conceitos já determinados e queira entender que há, sim, a
necessidade de algumas medidas acerca da população de negros.
E,
antes de concluir, devo mencionar dois detalhes: primeiro, não sou
adepta da palavra "negro" até porque não é esse o termo
usado pela Constituição Federal, mas, para evitar perda de foco
daquele que lê, preferi aderir a este termo; por fim, é importante
lembrar que as medidas relacionadas a cotas são medidas provisórias,
com data prevista de término para 2022.
Sem
mais, beijos de luz.
Bibliografia
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-05/jovens-negros-sao-mais-vulneraveis-violencia-no-brasil-mostra-relatorio
http://www.clickgratis.com.br/fotos-imagens/fofocas/racismo-relembre-famosos-internacionais-que-ja-sofreram-preconceito-racial/
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/negros-tem-26-vezes-mais-chances-de-morrer-que-brancos-no-brasil.html
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/pesquisa-comprova-que-preconceito-atinge-993-do-ambiente-escolar-no-brasil-bmg041fsqi54m7htmbm3emm32
http://vestibular.brasilescola.com/cotas/lei-das-cotas.htm